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Artigo

Saúde mental masculina: homens e terapia

Porque muitos homens falam da sua dor como se fosse de um amigo: o que a ciência diz sobre masculinidade, emoções e pedir ajuda psicológica.

Saúde mental masculina: homens e terapia
“Isto aconteceu a um amigo meu.”

É assim que muitos homens começam a primeira consulta. A dor é real, mas vem sempre com outro nome e outra morada: um amigo, um colega, “um tipo que conheço”.

Porque é que muitos homens falam das suas dores como se fossem de outra pessoa?

Na minha experiência clínica, falar de um “amigo” torna o sofrimento mais distante e, por isso, mais suportável. A investigação associa a adesão à masculinidade tradicional a atitudes mais negativas perante pedir ajuda psicológica e a mais autoestigma, e mostra que os homens têm, em média, um pouco mais de dificuldade em identificar e descrever emoções.

Saúde mental masculina: quando a dor “aconteceu a um amigo”

Em mais de 10 anos de clínica, as mulheres tendem a chegar mais abertas às emoções e mais atentas a si. Muitos homens, não todos, chegam a falar de alguém que está longe. Se o sofrimento for do outro, custa menos.

Os homens têm uma forma particular de lidar com as emoções. Lembro-me de outro paciente que, no momento mais crítico da sua vida, desmarcou as sessões para recuperar bem e só depois voltar, como se mostrar-se em sofrimento diante do terapeuta fosse humilhante, e não visto como suporte e apoio. Há imensos casos que poderia trazer-vos.

Homens e mulheres: atitudes perante a psicoterapia

Uma meta-análise de Nam e colegas (2010), com 16 estudos e 5 713 participantes, em amostras de estudantes universitários, concluiu que o género prediz de forma significativa as atitudes perante pedir ajuda psicológica: as mulheres tendem a ter atitudes mais favoráveis. O efeito é de pequeno a médio.

Mais recentemente, a meta-análise de Üzümçeker (2025), com 35 amostras, associou a masculinidade tradicional a atitudes mais negativas perante pedir ajuda psicológica (r = −0,38) e a maior autoestigma de o fazer (r = 0,35). São correlações moderadas, não prova de causa.

Atenção ao que isto não diz. Num inquérito nacional norte-americano com 1 963 pessoas com perturbação do humor ou de ansiedade, Susukida e colegas (2015) verificaram que os homens procuravam menos médicos e apoio informal, mas eram tão propensos como as mulheres a procurar profissionais de saúde mental. A diferença está sobretudo nas atitudes, e nem sempre no comportamento.

Os homens têm mais dificuldade em lidar com as emoções?

Em média, um pouco mais, mas por pouco. Na meta-análise de Mendia e colegas (2024), que reuniu estudos de 2004 a 2023, os homens pontuaram mais alto em alexitimia, isto é, na dificuldade em identificar e descrever o que sentem. O efeito foi pequeno (d = 0,22) e foi maior no pensamento orientado para o exterior, a tendência para se concentrar em factos e acontecimentos em vez de em sentimentos (d = 0,49, efeito médio).

Em 67 de 139 estudos, foram as mulheres a pontuar mais alto. É uma tendência com grande sobreposição, não uma regra: há homens muito atentos ao que sentem e mulheres que o evitam.

O que estes dados não dizem

Medem atitudes, autoestigma e dificuldade em identificar emoções, não o valor ou a capacidade de nenhum homem. As diferenças são pequenas a médias, com muita sobreposição, e vários estudos usam estudantes universitários ou amostras norte-americanas. As observações da minha prática clínica são isso mesmo, observações, não dados.

Chorar no ginásio: o que um paciente me contou

Um paciente contou-me que, numa fase de muito sofrimento, o escape eram os treinos no ginásio. E que nunca chorou durante todo esse tempo. Só nas sessões de psicoterapia. E no ginásio, a suar, quando as lágrimas se misturavam com o suor.

Pensei muito nisto.

Luto masculino: o espaço que falta

Mesmo o homem moderno continua a ter pouco espaço para certas emoções. Até quando são essenciais, como num luto. E um luto que não se chora tende a mudar de sítio, não a desaparecer.

Se é homem e já contou uma dor como se fosse de um amigo, quando foi a última vez que a contou como sua?

Perguntas frequentes sobre homens e psicoterapia

Os homens procuram menos ajuda psicológica do que as mulheres?

Têm, em média, atitudes menos favoráveis. Uma meta-análise de Nam e colegas (2010), com 16 estudos, concluiu que as mulheres têm atitudes mais favoráveis perante a ajuda psicológica, com um efeito de pequeno a médio, e a de Üzümçeker (2025), com 35 amostras, associa a masculinidade tradicional a atitudes mais negativas e a mais autoestigma. Mas num inquérito norte-americano (Susukida e colegas, 2015), os homens com perturbações do humor ou de ansiedade eram tão propensos como as mulheres a procurar profissionais de saúde mental. A diferença está sobretudo nas atitudes.

Porque é que muitos homens falam das suas dores como se fossem de outra pessoa?

Não há uma causa única. A investigação aponta para normas de masculinidade tradicional, como o controlo emocional e a autossuficiência. Na prática clínica, é frequente que a primeira consulta comece com “aconteceu a um amigo meu”: se o sofrimento for do outro, custa menos.

Os homens têm mais dificuldade em lidar com as emoções?

Em média, um pouco mais, mas a diferença é pequena e há muita sobreposição. A meta-análise de Mendia e colegas (2024), com estudos de 2004 a 2023, encontrou mais alexitimia (dificuldade em identificar e descrever emoções) nos homens, com efeito pequeno (d = 0,22), e uma diferença média no pensamento orientado para o exterior (d = 0,49). Em 67 de 139 estudos, foram as mulheres a pontuar mais alto.

É normal um homem chorar na psicoterapia?

Sim. Chorar é uma resposta emocional normal em qualquer pessoa. A psicoterapia existe, entre outras coisas, para dar espaço seguro a emoções que no resto da vida não encontram lugar, como acontece num luto.

Há psicólogo para homens em Lisboa?

Sim. A Illuminare – Clínica de Psicologia Lisboa acompanha homens e mulheres em consulta presencial, na Av. Duque de Ávila, em Lisboa, e em consulta online. A primeira consulta serve para compreender a sua situação e definir um plano terapêutico personalizado.

Referências

Mendia, J., Zumeta, L. N., Cusi, O., Pascual, A., Alonso-Arbiol, I., Díaz, V., & Páez, D. (2024). Gender differences in alexithymia: Insights from an updated meta-analysis. Personality and Individual Differences, 227, Article 112710. https://doi.org/10.1016/j.paid.2024.112710

Nam, S. K., Chu, H. J., Lee, M. K., Lee, J. H., Kim, N., & Lee, S. M. (2010). A meta-analysis of gender differences in attitudes toward seeking professional psychological help. Journal of American College Health, 59(2), 110–116. https://doi.org/10.1080/07448481.2010.483714

Susukida, R., Mojtabai, R., & Mendelson, T. (2015). Sex differences in help seeking for mood and anxiety disorders in the National Comorbidity Survey-Replication. Depression and Anxiety, 32(11), 853–860. https://doi.org/10.1002/da.22366

Üzümçeker, E. (2025). Traditional masculinity and men’s psychological help-seeking: A meta-analysis. International Journal of Psychology, 60(2), Article e70031. https://doi.org/10.1002/ijop.70031

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